segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Vago olhar

Quero esvaziar-me
Não.
Não se pode apagar a tinta ressecada, mas fresca
que imprime tua imagem
em mil na minha retina.
Não se pode passar corretivo
naquilo que é incorrigível
nem se deve cuspir na memória
como se cospe - merecidamente -
no deputado canalha defensor do retrocesso.

Não se pode olhar para trás
com os olhos de quem vira
e não soubera agir.
Mas, se soubesse, agiria como quem o sabe?

Na escuridão me encontro
sem tinta, sem retina,
sem corretivo, nem cuspe.
Transbordo-me em lembrança,
no olhar vago e cansado
daquela que não sabe
olhar para frente.

Estaria eu fadada à insensatez?

Oito de agosto de dois mil e dezesseis, numa noite sem final.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Oxum é minha mãe
Nas águas de minha mãe
Eu deito para adormecer
Ela mora dentro de mim
Nos meses senhor
Bate águas, bate, bate,
Espirra
Brinco com ela
Oxum minha mãe
Eu menino sempre
Velha criança contente e bela
Narciso, mora nela
Senhor, mora nela
Ouro, mora nela
D’Oxum todo riso
Ela me faz cafuné
Eu...
Rio...

Cipriano.
................

No oitavo dia
Aquando Deus vociferou
Contra Guerra, Fome, Injustiça,
Sua saliva cravou-se vermelha
N'humana terra sanguínea
Gelada, álgida, fria.
Rosas ali irromperam,
Botões carmim, repletos de espinhos!

Francisco

Pardos Dias, Fúrias Frias



"O século XXI erige-se sobre pilhas de corpos movidos a clonazepam. O rivotril é a base do segundo milênio." 
(um filósofo schopenhaueriano paradoxalmente contemporâneo)

Peito arfante,
Respirações pausadas
Mãos enrigeladas
Alma grita soturna
Agudeia tilintar de lâmina fria!

Um sorriso, sem vontade
Esgarça o lábio triste,
O gosto salgado
É de lágrima
O gosto amargo
É de vazio...

Sem ar, grito,
busco nome sem achar
Impossível falar...
Barulhos, ruídos ininteligíveis,
Só minhas escuridões escuto,
Só soluços são audíveis...

Vida a conta gota, dia por dia,
é maçante rotina,
Peito pesado berra um dies irae,
Rasga, trágico, grito álgido,
De macambuzo tripallium cotidie.

Canta em coro de dó insípido,
Balada de vida sem sentido...
Existo, enlutado, numa única via,
Choro não é lenitivo,
Lagrimo mudo, produzo, sobrevivo.

A gargalhada aziaga,
D'alma perturbada,
É saída sandia...
Dói perviver lúcido a vida,
Escola hostil e dolorida...
Tarja preta, minha dileta cor preferida!

Francisco

Canto para lua...

Canto para lua
Uivante
Lua flamejante
Lua minha
Lua de mim
Porque tal morte
Eu me calo
A vida fala
Desprovida linha do meu
“Cor”
E sofro como um cão danado
Luna no alvo
Lua no alvo
Lua minha
Amada formosura
Luna
Lum
Ah!!!


Cirpiano

Narciso...

Narciso idéias perdidas
Espelhos eu-comigo
Sou alguém, nem sempre refletido,
Narciso,
Olha pensamento teu
Transparente-nebuloso
Tu
Eternidade perdido
Tu-eterno outro
Sorrio branco
Pensamento trágico
Belo-lindo-morrível.


Cipriano

Santo Antônio

Santo Antônio

          Hoje, dia de Santo Antônio, faz sol. Um céu azul, claro e faz frio. É quase inverno e minha avó, com oitenta e um anos, treme de frio. Convido-a para nos sentarmos ao sol e falamos de corriqueiros assuntos. Ela diz que sente falta de ir à missa do santo, que faz tempo que não o celebra. O câncer a tem impedido de fazer quase tudo de gosta. É uma doença injusta. Olho nos seus olhos fundos a sensação de que talvez nunca mais poderá venerar Santo Antônio nas festividades do treze de junho. Ainda que consiga no próximo ano, não será com os olhos da saúde inabalável, como sempre a vi. Dói-me o coração e um desespero que transborda em lágrima discreta. - Santo Antônio, roga por ela! - penso, e logo a sensação de que a partida é certa e não pode ser evitada, mesmo que o santo batesse à nossa porta. Também ele passou pela morte. Essa é a vantagem da devoção aos santos: eram gente como a gente, um consolo metafísico para a condição humana.           Olho para a roseira seca, sem flores e folhas e digo-lhe que deveríamos podá-las.  Vovó concorda. Busco a tesoura e os galhos que caem, ela os recolhe e os me entrega, para plantarmos - talvez nasçam - diz-me com uma alegria cotidiana nos olhos. O sol é generoso: sinto o calor, ela não.         Penso que deveríamos aproveitar mais a presença daqueles que amamos. Minha reação imediata é buscar um adubo para regar a roseira e os galhos: não posso perder o trabalho daquele momento por conta das instabilidades do tempo. Não poderia negligenciar a dádiva dessa pequena alegria.      Rego-as. Pergunto-me o que será dessas flores se minha avó verá as roseiras em plenitude. Ela as contemplará. As rosas serão testemunhas do pequeno gesto epifânico que me ocorreu num dia de outono gelado em dois mil e dezesseis. O vento frio lhe pousa sobre a fronte ela volta para dentro de casa. Eu ainda fico ali, velando por alguns minutos as futuras flores, fito o futuro como quem tateia no escuro, como quem nega o inevitável.          Será que Santo Antônio cultivará rosas para minha avó no céu?

Bárbara Kreischer

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ama comigo
Amigo, algumas ideias perdidas
No grande jardim elísio
Dos sentimentos heroicos
Valentes
Parte comigo, ó amigo.
Não ouso grafar pronome de posse
Amigo
Amo sim,
Amo fim.
Tenho medo de tal “simpatia”
Mas amo ainda Amigo,
Teu coração leal, fraternal, cordial.
Nobre.
Parte comigo,
Ó amigo.
Parte comigo, pro mundo das coisas reais
Da bondade boa
Da felicidade grande
Do abraço inteiro
Do amor contundente
Do amor que me chama de Gente.

Cipriano.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Para tão longo amor...

Entre desvios bifurcados
Entre enleios de caminhos entroncados
As nossas vias se cruzaram,
Mergulhei nos castanhos de teus pequenos olhos,
Encontrei sentido único em teu rosto bem talhado,
Na barba grossa que me alça às nuvens
Quando em meu desnudo corpo roça...
Uma rota inesperada fulgurara.

Nos descaminhos de uma calculada louca vida,
Rumo em teus lábios encontrei...
Qual é o sentido de amar,
Se não o de se perder sentido as linhas
Dantes traçadas quando o amado inexistia?
Qual é o sentido de amar,
Se não o de não ter sentidos e caminhos?

Na tua pele morena, no tato e calor dela,
Meu estado febril e temperatura amena
Encontram-se num desequilibrado equilíbrio exacerbado:
Amar é fazer presente o sempiterno estado de um beijo,
Amar é trilhar o caminho do eterno segundo
em que as nossas almas se encontram no gozo indizível do encontro,
mortos e enterrados passado e futuro,
só o presente temos: ponto de luz entre nossas mãos os corpos,
num beijo eterno temos o continente de todo o mundo!

Quem o mundo tem com caminhos não se importa
Destino não é nada,
Só nosso tempo há.
Eu te amo é o espaço onde teu coração não é o objetivo,
É a via pela qual ditoso trilho.



Francisco, abril 05, 2016

Quando amor o poeta viu e compreendeu o que não entenderá nunca...
Arcânjeluz

Rafael,
Tens fogo nos olhos
Tens fogo na alma
Luz no sorriso,
Lampejo forte!
Relâmpago poderoso, mas dócil,

És Quente, reconfortante!
Com o indômito poder ígneo,
Pulsando vermelho,
Nas gotas de teu sangue de Magma...
És Brasa arrebatadora
Sol de luz nascente
Apolo em carro incandescente...

Rafael,
Minha cura,
Cura dos Deuses 
Luzente menino,
Sol feito de mil outros sóis,
em um átomo contido.

Ocultado em angelical criatura
Singela, humilde,
Com segredos escondidos,
Revelados em olhos inflamáveis,
Que me despertam,
Em recônditos incêndios,
Incessantes
Inéditos
Cativantes
Eternos

Francisco 
Lágrima

Afinal, o que é estar infeliz?
É ter alma Multíplice e cigana
Viajante de muitos lugares,
Imaginadora?
Que reside onde não pode O corpo estar...
E deseja velejar por lugares 
Que ninguem ouvira falar?
Ser infeliz é estar preso
Onde não se quereria estar?

É estar fadado 
A ser insatisfeito na satisfação
A querer o que não pode possuir
Sonhar, desejar, aspirar,
Àquilo que nunca SE vai conseguir?
Não. Arrisco palpitar.
Isso é frustração...

Então Tristeza é frustração?
Não. Frustração é manga rosa com casca de metal,
É falso amigo de infância, doce por fora
Com polpa amarga por dentro.
É trufa de brigadeiro revestida de fel e carqueja.
É traição, beijo de Judas.
Supera-se em três dias de morte e ressurreição.

Tristeza dói mais...
É estar sozinho cercado de vozerio,
É estar sedento dentro de rio,
É ser amado e não amar...
E, amar sem ser amado,
Além de tristeza, é azar.

Tristeza é vazio,
Tristeza é se sentir apertado
Em sua imensa largueza...
Tristeza é vagar parado naquilo que não se fez
Parar na culpa e adorá-la como deusa,

Arrepender-se do plano não executado,
Sem poder culpar disso outro ser senão a si...
Tristeza é ser vácuo Repleto de ar,
Estar oco de sentidos,
Mas hiperssensível a tudo que pulsar...

É morrer a cada minuto
Porque se quer muito viver...
Repleto de esperanças mortas,
Jacentes em vala ordinária...
Empilhadas,
Olhos vidrados, rostos inertes, sem respirar...
Indigna do Santo Solo
Dedicado aos sonhos
há muito sepultados.

Tristeza hoje sou eu...
Afogado, sufocado, morto, estilhaçado
Neste bravio, negro e árido mar de mim...
Dormente, desgraçado
Em meu esquife,
Esperando um ósculo perdido, 
Que nunca chegará...

Tristeza sou eu...

Francisco
Conte de Sorcière

Pobre de minh'alma.
Um dia princesa se achou.
Um esquife cristalino,
Com suas próprias lágrimas fabricou.

Envenenada, deitou-se.
Sem mais, a esperar pôs-se
O seu Príncipe retornar.
O tempo, impaciente, passou-se.

O Amado não voltou
A maldição perdurou.
Hoje só restaram os ossos, 
Nenhum príncipe chegou.

O real paspalho, 
Idiota real, imagem de Adão
Uma vergonha para Romeu...
De sua mais preciosa jóia olvidou

Morreu velho, pobre, só...
Ensimesmo sepultado
Com honras e mais nada
Dois anos depois, esquecido pó...

A seu favor digo, 
Felizes são as Bruxas: 
Elas agem, nunca esperam, 
por isso morrem jovens, vivendo eternas, 
ao contrário de pobres princesas!

Enclausuram-se 
Em Principescos exemplos de atraso,
Inertes, filisteus e burros!
Que com os anos criam barrigas
E as fazem empregadas,
Mulheres dantes quase rainhas...

Estes contos que ouvistes
Nascem da fantasia 
De alguma velha débil,
Louca, alienada, tola e esquecida.

A seu favor digo, 
Felizes são as Bruxas: 
Elas agem, nunca esperam, 
por isso morrem jovens, vivendo eternas,
Ao contrário das pobres princesas,
Que viram ossos ou escravas de inermes,
... Para sempre


Francisco Gonçalves

domingo, 27 de março de 2016

Mosaico-talhos

Só encontro-me,
Ensimesmo-me,
Em nigérrimas grutas,
Cavernosas cuias
Algumas enchidas de rum.
Busco-me só...
Busco-me e só.

Cato pedaços perdidos,
Colo-os, continuo desmontado.
Ad semper mosaico,
Desconstruído,
Complicado,
Descontínuo.

Mas
Não me fales de ti,
Não quero te ouvir,
Me encontro em minha escuridão,
Retém tua mão, some,
Silencia, despacha-te, vai,

Não invejo tua falsa unicidade crua,
Teu fingimento cínico de razão,
Filhos de Apolo em Parnaso estão!
És talhado na fôrma gauche de Adão:
C'est faux, palavras somente repetes,
Cego és tu, cegos teus mestres!

Sou de Dionísio,
Cada caco meu urra emoção,
Grita vivência nua,
Traz história contada,
Em beira de fogueira cigana!
Palavras talhadas em navalha,
Risadas, lágrimas, amores vários...

Minhas peças desagregadas,
Bacantes a correr selvagens,
Não invejam o gesso grosso
Onde embotas teus temores,
Teus segredos podres,
Tua ilusão de ser um,

O um não é gente,
Sou vários,
Gente sou!
Em meio a tantos, gente estou!

Encontro-me só!
Só encontro-me!
Há mais ventura em buscar,
Do que gozo em achar...
Deixa-me catar-me
Vida de gente é demanda
E só...

Francisco Gonçalves, março 28, 2016
Passionis

Fere profundo
A lança ambipontiaguda,
Desta loucura chamada amor
Que o diga Briseida enlouquecida
Comigo dialogando,
Que o diga Medéia ensandecida:
Num átimo mato:
frutos mais lindos...legítimos...
Num átimo firo:
pedaços de mim,
atalhos curtos, para golpear-te!
Dorida, ainda sangro...
Gota a gota, Sangro...
Gotas rubras, amargas,
Fragilmente tatuadas,
Teu nome escrito...

Francisco Gonçalves, dezembro 6, 2015
A TI

Amo-te por razões
Que a razão desconhece
Diz a sabedoria (popular)
Mas amo-te antes
Por razões 
que exibidos mortais
preferem não falar.

Reconheço meu ego 
errante que em ti, 
somente em ti
Desejas repousar
Um amor de razões egoístas
Que a sabedoria (popular)
Prefere não reconhecer
Prefere não falar.

Mas aqui reconheço:
É pleno o meu amor
E não nego o ego:
nele carrego anseios
É amor que somente 
Deseja
RE
    POU
          SAR

Repousado, pleno,
na Efemeridade do fugidio
Tempo
Nos teus braços deseja
SU
   BLI
         MAR.


                                                                   Petrópolis, fevereiro de 2016
                                                                   Bárbara Kreischer
MEDO
O medo que assola
Que apavora
Que contém
Que irrita
Que desarma
Que desestrutura
é o medo de todos os dias
não importa
se é fevereiro ou novembro.
É o medo
do porvir
do futuro
da perda
da escolha
do outro.
O medo é a redoma
Que sufoca
Que apaga
Que encolhe
Que diminui
Nesta sala vazia.

                                                                               Rio, 29/10/2013
                                                                                                Bárbara