Mosaico-talhos
Só encontro-me,
Ensimesmo-me,
Em nigérrimas grutas,
Cavernosas cuias
Algumas enchidas de rum.
Busco-me só...
Busco-me e só.
Cato pedaços perdidos,
Colo-os, continuo desmontado.
Ad semper mosaico,
Desconstruído,
Complicado,
Descontínuo.
Mas
Não me fales de ti,
Não quero te ouvir,
Me encontro em minha escuridão,
Retém tua mão, some,
Silencia, despacha-te, vai,
Não invejo tua falsa unicidade crua,
Teu fingimento cínico de razão,
Filhos de Apolo em Parnaso estão!
És talhado na fôrma gauche de Adão:
C'est faux, palavras somente repetes,
Cego és tu, cegos teus mestres!
Sou de Dionísio,
Cada caco meu urra emoção,
Grita vivência nua,
Traz história contada,
Em beira de fogueira cigana!
Palavras talhadas em navalha,
Risadas, lágrimas, amores vários...
Minhas peças desagregadas,
Bacantes a correr selvagens,
Não invejam o gesso grosso
Onde embotas teus temores,
Teus segredos podres,
Tua ilusão de ser um,
O um não é gente,
Sou vários,
Gente sou!
Em meio a tantos, gente estou!
Encontro-me só!
Só encontro-me!
Há mais ventura em buscar,
Do que gozo em achar...
Deixa-me catar-me
Vida de gente é demanda
E só...
Francisco Gonçalves, março 28, 2016
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