Oxum é minha mãe
Nas águas de minha mãe
Eu deito para adormecer
Ela mora dentro de mim
Nos meses senhor
Bate águas, bate, bate,
Espirra
Brinco com ela
Oxum minha mãe
Eu menino sempre
Velha criança contente e bela
Narciso, mora nela
Senhor, mora nela
Ouro, mora nela
D’Oxum todo riso
Ela me faz cafuné
Eu...
Rio...
Cipriano.
Quão pouco os poetas se encontram em meio às suas rotinas "sempicaóticas". Desafie essa devoradora aqui: Comente, Recite, Cante, Vocifere. EXPRESSE!Somos os bardos deste século tão secular onde vivemos! Pare tudo o que estiver fazendo, Dê-se este tempo, dê-nos este tempo! Carpe Diem! Com a benção da lira de Apolo Febo! Seja bem vindo! Faça parte do Círculo dos Bardos, o clã da poesia na internet! Para seu poema ou texto em prosa ser publicado aqui envie para circulodosbardosoficial@gmail.com
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Pardos Dias, Fúrias Frias
"O século XXI erige-se sobre pilhas de corpos movidos a clonazepam. O rivotril é a base do segundo milênio."
(um filósofo schopenhaueriano paradoxalmente contemporâneo)
Peito arfante,
Respirações pausadas
Mãos enrigeladas
Alma grita soturna
Agudeia tilintar de lâmina fria!
Um sorriso, sem vontade
Esgarça o lábio triste,
O gosto salgado
É de lágrima
O gosto amargo
É de vazio...
Sem ar, grito,
busco nome sem achar
Impossível falar...
Barulhos, ruídos ininteligíveis,
Só minhas escuridões escuto,
Só soluços são audíveis...
Vida a conta gota, dia por dia,
é maçante rotina,
Peito pesado berra um dies irae,
Rasga, trágico, grito álgido,
De macambuzo tripallium cotidie.
Canta em coro de dó insípido,
Balada de vida sem sentido...
Existo, enlutado, numa única via,
Choro não é lenitivo,
Lagrimo mudo, produzo, sobrevivo.
A gargalhada aziaga,
D'alma perturbada,
É saída sandia...
Dói perviver lúcido a vida,
Escola hostil e dolorida...
Tarja preta, minha dileta cor preferida!
Francisco
Canto para lua...
Canto para lua
Uivante
Lua flamejante
Lua minha
Lua de mim
Porque tal morte
Eu me calo
A vida fala
Desprovida linha do meu
“Cor”
E sofro como um cão danado
Luna no alvo
Lua no alvo
Lua minha
Amada formosura
Luna
Lum
Ah!!!
Cirpiano
Narciso...
Narciso idéias perdidas
Espelhos eu-comigo
Sou alguém, nem sempre refletido,
Narciso,
Olha pensamento teu
Transparente-nebuloso
Tu
Eternidade perdido
Tu-eterno outro
Sorrio branco
Pensamento trágico
Belo-lindo-morrível.
Cipriano
Santo Antônio
Santo Antônio
Hoje, dia de Santo Antônio, faz sol. Um céu azul, claro e faz frio. É quase inverno e minha avó, com oitenta e um anos, treme de frio. Convido-a para nos sentarmos ao sol e falamos de corriqueiros assuntos. Ela diz que sente falta de ir à missa do santo, que faz tempo que não o celebra. O câncer a tem impedido de fazer quase tudo de gosta. É uma doença injusta. Olho nos seus olhos fundos a sensação de que talvez nunca mais poderá venerar Santo Antônio nas festividades do treze de junho. Ainda que consiga no próximo ano, não será com os olhos da saúde inabalável, como sempre a vi. Dói-me o coração e um desespero que transborda em lágrima discreta. - Santo Antônio, roga por ela! - penso, e logo a sensação de que a partida é certa e não pode ser evitada, mesmo que o santo batesse à nossa porta. Também ele passou pela morte. Essa é a vantagem da devoção aos santos: eram gente como a gente, um consolo metafísico para a condição humana. Olho para a roseira seca, sem flores e folhas e digo-lhe que deveríamos podá-las. Vovó concorda. Busco a tesoura e os galhos que caem, ela os recolhe e os me entrega, para plantarmos - talvez nasçam - diz-me com uma alegria cotidiana nos olhos. O sol é generoso: sinto o calor, ela não. Penso que deveríamos aproveitar mais a presença daqueles que amamos. Minha reação imediata é buscar um adubo para regar a roseira e os galhos: não posso perder o trabalho daquele momento por conta das instabilidades do tempo. Não poderia negligenciar a dádiva dessa pequena alegria. Rego-as. Pergunto-me o que será dessas flores se minha avó verá as roseiras em plenitude. Ela as contemplará. As rosas serão testemunhas do pequeno gesto epifânico que me ocorreu num dia de outono gelado em dois mil e dezesseis. O vento frio lhe pousa sobre a fronte ela volta para dentro de casa. Eu ainda fico ali, velando por alguns minutos as futuras flores, fito o futuro como quem tateia no escuro, como quem nega o inevitável. Será que Santo Antônio cultivará rosas para minha avó no céu?
Bárbara Kreischer
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