segunda-feira, 4 de julho de 2016

Santo Antônio

Santo Antônio

          Hoje, dia de Santo Antônio, faz sol. Um céu azul, claro e faz frio. É quase inverno e minha avó, com oitenta e um anos, treme de frio. Convido-a para nos sentarmos ao sol e falamos de corriqueiros assuntos. Ela diz que sente falta de ir à missa do santo, que faz tempo que não o celebra. O câncer a tem impedido de fazer quase tudo de gosta. É uma doença injusta. Olho nos seus olhos fundos a sensação de que talvez nunca mais poderá venerar Santo Antônio nas festividades do treze de junho. Ainda que consiga no próximo ano, não será com os olhos da saúde inabalável, como sempre a vi. Dói-me o coração e um desespero que transborda em lágrima discreta. - Santo Antônio, roga por ela! - penso, e logo a sensação de que a partida é certa e não pode ser evitada, mesmo que o santo batesse à nossa porta. Também ele passou pela morte. Essa é a vantagem da devoção aos santos: eram gente como a gente, um consolo metafísico para a condição humana.           Olho para a roseira seca, sem flores e folhas e digo-lhe que deveríamos podá-las.  Vovó concorda. Busco a tesoura e os galhos que caem, ela os recolhe e os me entrega, para plantarmos - talvez nasçam - diz-me com uma alegria cotidiana nos olhos. O sol é generoso: sinto o calor, ela não.         Penso que deveríamos aproveitar mais a presença daqueles que amamos. Minha reação imediata é buscar um adubo para regar a roseira e os galhos: não posso perder o trabalho daquele momento por conta das instabilidades do tempo. Não poderia negligenciar a dádiva dessa pequena alegria.      Rego-as. Pergunto-me o que será dessas flores se minha avó verá as roseiras em plenitude. Ela as contemplará. As rosas serão testemunhas do pequeno gesto epifânico que me ocorreu num dia de outono gelado em dois mil e dezesseis. O vento frio lhe pousa sobre a fronte ela volta para dentro de casa. Eu ainda fico ali, velando por alguns minutos as futuras flores, fito o futuro como quem tateia no escuro, como quem nega o inevitável.          Será que Santo Antônio cultivará rosas para minha avó no céu?

Bárbara Kreischer

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