domingo, 27 de março de 2016

Mosaico-talhos

Só encontro-me,
Ensimesmo-me,
Em nigérrimas grutas,
Cavernosas cuias
Algumas enchidas de rum.
Busco-me só...
Busco-me e só.

Cato pedaços perdidos,
Colo-os, continuo desmontado.
Ad semper mosaico,
Desconstruído,
Complicado,
Descontínuo.

Mas
Não me fales de ti,
Não quero te ouvir,
Me encontro em minha escuridão,
Retém tua mão, some,
Silencia, despacha-te, vai,

Não invejo tua falsa unicidade crua,
Teu fingimento cínico de razão,
Filhos de Apolo em Parnaso estão!
És talhado na fôrma gauche de Adão:
C'est faux, palavras somente repetes,
Cego és tu, cegos teus mestres!

Sou de Dionísio,
Cada caco meu urra emoção,
Grita vivência nua,
Traz história contada,
Em beira de fogueira cigana!
Palavras talhadas em navalha,
Risadas, lágrimas, amores vários...

Minhas peças desagregadas,
Bacantes a correr selvagens,
Não invejam o gesso grosso
Onde embotas teus temores,
Teus segredos podres,
Tua ilusão de ser um,

O um não é gente,
Sou vários,
Gente sou!
Em meio a tantos, gente estou!

Encontro-me só!
Só encontro-me!
Há mais ventura em buscar,
Do que gozo em achar...
Deixa-me catar-me
Vida de gente é demanda
E só...

Francisco Gonçalves, março 28, 2016
Passionis

Fere profundo
A lança ambipontiaguda,
Desta loucura chamada amor
Que o diga Briseida enlouquecida
Comigo dialogando,
Que o diga Medéia ensandecida:
Num átimo mato:
frutos mais lindos...legítimos...
Num átimo firo:
pedaços de mim,
atalhos curtos, para golpear-te!
Dorida, ainda sangro...
Gota a gota, Sangro...
Gotas rubras, amargas,
Fragilmente tatuadas,
Teu nome escrito...

Francisco Gonçalves, dezembro 6, 2015
A TI

Amo-te por razões
Que a razão desconhece
Diz a sabedoria (popular)
Mas amo-te antes
Por razões 
que exibidos mortais
preferem não falar.

Reconheço meu ego 
errante que em ti, 
somente em ti
Desejas repousar
Um amor de razões egoístas
Que a sabedoria (popular)
Prefere não reconhecer
Prefere não falar.

Mas aqui reconheço:
É pleno o meu amor
E não nego o ego:
nele carrego anseios
É amor que somente 
Deseja
RE
    POU
          SAR

Repousado, pleno,
na Efemeridade do fugidio
Tempo
Nos teus braços deseja
SU
   BLI
         MAR.


                                                                   Petrópolis, fevereiro de 2016
                                                                   Bárbara Kreischer
MEDO
O medo que assola
Que apavora
Que contém
Que irrita
Que desarma
Que desestrutura
é o medo de todos os dias
não importa
se é fevereiro ou novembro.
É o medo
do porvir
do futuro
da perda
da escolha
do outro.
O medo é a redoma
Que sufoca
Que apaga
Que encolhe
Que diminui
Nesta sala vazia.

                                                                               Rio, 29/10/2013
                                                                                                Bárbara