sexta-feira, 31 de maio de 2013

Saudade

Saudade

Aquela amiga das horas
Infinita em sua finitude
A Saudade...
Tua ausência é assim: Saudade.
Que só é descrita perfeitamente
Na língua materna de Pessoa

Pergunto-me por onde andas teu pensamento.
O meu é Saudade.
O teu é de admiração do Novo Mundo Velho
O meu é de sonho vacante
Que oscila entre a realidade e tua imagem
Teu cheiro, tua voz, tua pele... tão fixos
Que me projeto a teus olhos
E te beijo com ternura...
E de repente
Não há mais você...

E recomeço a pensar
Que no dia que voltar eu cumprirei tudo isso
E que O mar te trará de volta a mim
Mas nunca a coragem de contar
A Verdade...
Então, restará dizer o que senti:
Saudade.

Bárbara Kreischer

♏ Vestal ♏

 Vestal  

Ó, Vesta, dedico-vos esta canção, este monte
A vós que tendes inclinada a virginal fronte
O olhar puro, branco, sem divisas,
Boca de palavras meladas, adocicadas,
Do cantar canoro, entorpecedor.

Quero sentir o teu lábio quente
Degustar a vossa pele doce, atraente
Os bicos eretos de vossos virginais seios
Vossos leitosos braços de mil enleios
Onde posso, quero, jazer e descansar.

Luminosa e pacata Alva deusa,
Pura, virginal aos outros... apareces em fogo para mim
Eu vos desejo, vos cobiço, incedeio
desejo puro, nada virginal ... em carmim
De Elêusis a Delfos, ninguém, ... só a ti anelo, em fogo, anelo!

Báquico, dionisíaco
Desejo-vos, minha Deusa
Sem poder desejar-vos,
Anseio, espero...


Francisco Gonçalves

Um (a)(ru)moroso

Um (a)(ru)moroso

Nunca fui de grandes juízos...
Faz tempo que Sophia, vaca sedutora, me encantou e largou!
Esta frígida, não atura falta de siso por muito!
Velha morta, virgem virgiana, chata, sábia...
Deixou um bilhete polido e vazou!

De hoje, dela, restam mágoas e bágoas,
Lembranças recicladas,repetidas,  inventadas,
De uma relação frustrada que passou.

Vivo de nossas memórias, confesso...
Fato é: Não produzo nem reproduzo,
Sem tua impertinente organização!

Tua falta tá doendo, empacado e embasbacado,
Repetindo velhas sacadas como papagaio,
To num lugar ermo, desinspirado e cansado...
Afogado numa merda de inércia, sem ideia nem pensar...

Ah, Volta pra mim, Sophia!
Vamos flertar, vem me inspirar,
Um bom vinho, uma noite longa, uma trepada gostosa,
E voltaremos a multiplicar! Produzir, amar...
1001 tardes de Sherazade, a copular, contar, recontar,
Orgásticas páginas e páginas de histriônico gozo poético:
Orgias de teorias, teses, artigos...

A verdade, é que brigamos, mas te amo, mesmo dionisíaco...
Sem você meu trabalho perde o viço, o sentido...
Minha arte perde o amor...
Minha ciência ganha pudor...

O que é um poeta sem musa?
Um ensaísta sem paixão?
Um pesquisador sem afã?
Uma alma sem ardor?

É Praia sem sol, É Barco sem vento, Café com adoçante... Amante sem tempo,
Adulto sem dente... Criança engessada, Bala sem doce, Ofensa engasgada,

É Vida sem dor...

É Beijo sem amor...

É “chupar a vida com papel”! Ouvir piada sem palavrão:
Quase tem graça...
Só que não!

A um dia 6 de março do 13, dia sem muito êxito!

Francisco Gonçalves

Mors

Mors

Caminho num jardim de cinzas lápides
Num cemitério frio, anguloso, úmido e pálido...
A movente lama gélida e mole por debaixo de meus pés,
Lembra a própria finitude de minha flácida frágil carne,

Fico estático, extático diante de tua lápide
Afogado num mar de quadradas cruzes enlodaçadas
A ler e reler teu exótico nome,
Letra por letra, lacuna por lacuna...
Sem atinar pro oco, pras vidas estraçalhadas
Que restaram em mim...

Quero, sem êxito, deixar-te ir,
Como as pétalas mortas de um cravo que deixei cair
Uma a uma, uma a uma...
Em meio a orações surdas sem resposta alguma
Contudo sinto amargor de fingida e cortante culpa...
Porque amo-te, mas não posso enterrar-me por ti

Um impassível anjo me fita, firme
Com seus olhos mortos, desafia-me a lhe seguir
Um marmóreo olhar, um toque mudo,
As graves sobrancelhas, a boca fria de som sibilante, sentencia:
- Ou vinde, ou vives... Só finados seguem daqui!

Decido! Vivo morrendo, porque não mais por ti! Mas Vivo!
É destino... sou do inverno, hei de subsistir,
Apartai-vos vermes, não serei lama aqui!
Preciso sobreviver a ti,
Com teu enterro um novo eu nasce em mim,
Morre, tom de meu canto, vira lama,
para que de um novo barro eu possa existir,

Vai meu amor, vou deixar-te ir...
Vai meu amor,
Vou deixar-te, morto, partir...

Quedo
desfolhado, desolado, insulado
traído por quem nasci:
Hiberni pueri, fadado...

Insistente a cumprir a sina do ser,
Viver X Morrer um Filho do Inverno, predestinado...
A, de novo, mil vezes mil,
 Quanto durarem os tempos,

vivendo

Morrer.

Francisco Gonçalves

(À) Bientôt

(À) Bientôt

Nunca deixo de lembrar que te esqueci,
Esquecer que te perdi...
Mesmo com a última pá da negra terra em tuas fauces
Falta-me a coragem de deixar-te ir...

A chaga não cura...
A ferida é aberta...
Teu rosto vai desaparecendo...
Mas teu cheiro, teu gosto, teu toque,
Persistem,
Subsistem
Não me deixam dormir...

Vai meu amor,
Porque outros virão...
Quero crer que virão...
Tu serás lembrança,
Lápide fria, onde com tempo
E a dedicação da alma viúva enamorada

Leixarei a última rosa rubra, um cravo negro e um adeus!

Francisco Gonçalves
O fiapo de felicidade

Uma das minhas melhores amigas me ligou ainda há pouco para narrar mais um daqueles episódios que nós, mulheres, tememos encarar: o cara que você curte, que ama, que amou, que é coisa de pele e o que quer que seja, não deu certo contigo e você “descobre” que agora ele tem outra. O simples fato da coisa toda não ter dado certo, geralmente é uma tortura para as mulheres, que se perguntam infinitamente como e por que deu errado: a gente se doa, a gente joga o jogo, a gente se prepara, a gente faz o diabo pro sujeito entender que estamos a fim de que a coisa dê certo. Mas muitas vezes não dá. Na maioria delas não dá.
Não sou destas feministas que dizem com veemência que “os homens não prestam” . Com exceção daquela conversa numa mesa de bar em que escancaramos estes jargões para provocar os homens ao nosso redor, não acredito nessa afirmativa. Acredito que os homens funcionam de outro modo, e ponto: não adianta querermos decifrá-los porque é tarefa inútil. Os homens são práticos e só fazem o que realmente querem , de um modo geral.
Mas ao ouvir minha amiga, me senti no lugar dela: a história se repete. E de novo...e de novo. E as histórias de outras amigas e a minha também se repetem. Todavia hoje, me identifiquei mais uma vez ao ouvi-la chorar. Minha avó diz que entender as lágrimas do outro é saber exatamente como ele se sente. Eu me senti na pele dela e tentei buscar palavras para acalmá-la e tentar fazê-la entender que a vida segue; me dei conta de que o mesmo conselho serve para mim.
Sozinha em casa em mais um domingo ensolarado, pus-me novamente a refletir e rodear-me de pensamentos vãos acerca dos relacionamentos amorosos. Me dei conta de que, ainda que estejamos em um relacionamento instável e muitas das vezes infeliz, nos apegamos a ele. Nos apegamos ao mínimo de bom que ele pode oferecer. Ou que em outro momento tenha oferecido. Garcia Márquez é o escritor que melhor traduziu (pelo menos para mim) este apego ao que hoje nomeei “fiapo de felicidade” : “ a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas (...) graças a este artifício, conseguimos suportar o passado.”
Fiapo de felicidade: essa era a expressão que eu procurava há  tempos para entender ao que eu e tantas outras mulheres nos apegamos. Na maior parte destes tipos de relacionamentos, infelizmente a felicidade não é maior que o sofrimento: brigamos, cometemos excessos, exigimos demais, jogamos errado. Ah, os jogos...quantas vezes jogamos o jogo julgando ter certeza de que é o jogo certo! Bobagem. Os homens se cansam. A gente também se cansa. E quando o cansaço bate à porta de ambos, nos apegamos ao fiapo de felicidade. O cara te faz o diabo, você faz da vida dele o diabo também, mas quando ele vai embora, é duro digerir. É duro ouvir dele o “não”. É duro tomar um café sozinha porque ele não está mais ali contigo: está com outra. Normal que ele tenha outra, é a ordem natural das coisas. E a ideia desce tão amarga como o café solitário que você pediu: fiapo de felicidade está ali. Você se apegou tanto a ele que poucas vezes se dá conta de que não pode e nem precisa mais dele porque o fiapo é só lembrança. E fiapo não é a totalidade: é uma parte mínima. Relacionamento demanda entrega, honestidade, amor...
Em mais uma tarde de domingo ensolarado, o fiapo ainda assombra meus pensamentos. Os da minha amiga também. Concluo que ele é uma tentativa vã de buscar a felicidade. Concluo também que o tempo todo estamos nesta busca infindável, pagando um preço alto sem nos questionar por quê. Por fim, me entrego ao pensamento de que é necessário deixar o fiapo de felicidade escapar das nossas mãos pelo vento sem olhar para trás e começar novamente tecer a felicidade completa. Sem desistir, como Penélope à espera de Ulisses. Crer em nós mesmas é o que basta. Um dia Ulisses chegará. Enquanto ele não vem, o tear nos aguarda.

Bárbara Kreischer

24/02/2013
Poeta & Poesia

Encontrei-me com um sábio trovador,
- Perdei o medo, poetinha, - ele diz
- Mostrai as entranhas e os sentimentos,
Gavetas não riem ou choram
Artistas somos, à Palavra servimos
Sois dela herdeiro e filho.

Sou Caçula no nome, mas maior no ofício
Grinaldas de trovas
Ofereço em benefício
a ti, poetinha, e a todos os poetas que encontrar
Para que saias do armário e mostre ao mundo
Os verbos do verbo,
O amor do poetar que a Arte vos deu,
A Ela servimos, a Ela devemos incensar!

Velhos poetas migram,
Como inverno que foi,
Folhas caídas,
És o verão e precisais chegar!

- Eu, poetinha, feliz,
Com a sábia exortação,
Do gran Trovador
Em casa compus!


Francisco Gonçalves (Num treze de maio)

Boas Vindas!

Primeira postagem deste pequeno blog! 
Primeira de muitas esperamos!!!!!

Arte, Poesia e Bem viver...

Aqui é o lugar!

Godspeed!