Manifesto
do vazio
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
Camões
Há tempos que meu
coração é lugar vazio, o que me amedronta.Veja bem, o maior perigo para quem
sempre amou é estar num quarto vazio numa madrugada fria e se dar conta de que,
como aquele espaço, o coração é vazio. É evasivo. Sem dono. E por quê? Bom, meu
caro, quando tomei a decisão de não mais amar, confesso que não acreditei no
que eu impunha à minha alma, ainda jovem, mas desesperançosa. Você constrói
sonhos com o outro e este outro de repente não está mais ali pra te dizer que
aquilo é o que “sonhamos”. Ou você idealiza e isso é o bastante pra viver como
um esquizofrênico.A verdade é que um dia você tira os óculos coloridos e
percebe que seu mundo é preto e branco mesmo. Turvo. Cheio de pontos cegos. E
não há mais nós, tampouco planos. E você se vê num beco em que a única saída é
escolher sair dele sozinha e não amar como antes.
Aí que reside minha
inquietação: de fato, minha “autopromessa” se cumpriu e meu coração está em
aberto. E, como qualquer ser humano paradoxal que é, se dá conta de que amar é
uma das melhores experiências que se pode viver. Não importa o tamanho, duração
e intensidade que se vive tal amor: é amar que te torna mais belo neste mundo
perverso. Atire a primeira pedra quem não gosta de se deitar apaixonadamente
com quem ama e levar às últimas consequências do prazer este amor. Gozar com o
corpo e a mente junto de quem se ama é uma experiência espiritual. Por quê?
Ora, porque te leva a um lugar que só por esta via pode ser alcançada.
Há quem defenda que é
possível ser feliz sem amar. Concordo em parte. Não acredito nesta conversa do
senso comum que diz que pra ser feliz tem que ser a dois. Custei a entender
isto e tento compreender a experiência que é estar sozinha , criar e cunhar meu
espaço individual e sobretudo, se entender. Contudo, há algo em mim que o tempo
todo desperta para a vontade de me apaixonar.
Ah, como é bom poder se
envolver, ter um quarto vazio numa madrugada de junho para poder desfrutar do
silêncio com o outro. Acontece que não há o outro. Que ele não exista ali ao
seu lado fisicamente é perfeitamente aceitável, uma vez que ele reside nos
pensamentos e devaneios mais íntimos da psyché.
Todavia, o que se faz quando nem nos sonhos ele reside? É desejo, mas não é projetado;
não tem rosto e só poderia existir à medida que o pensasse. Mas não penso e
isso me faz infeliz, porque apesar da inexistência, havia um ideal e agora não
há mais. Havia sonhos, planos, aspirações e agora não há mais. A ansiedade e a
idealização não existem mais também...vazio...vazio...vazio...
Em qual tempo ficou
perdida a minha coragem pra amar?
Laura
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