domingo, 16 de junho de 2013

Manifesto do vazio

Manifesto do vazio


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Camões

Contemplo o escuro do meu quarto numa noite fria de junho e penso num futuro que poderia ter sido. Deste futuro do pretérito, o que mais me inquieta é pensar nas antigas expectativas de alguém que um dia amou  interessada e desinteressadamente.
Há tempos que meu coração é lugar vazio, o que me amedronta.Veja bem, o maior perigo para quem sempre amou é estar num quarto vazio numa madrugada fria e se dar conta de que, como aquele espaço, o coração é vazio. É evasivo. Sem dono. E por quê? Bom, meu caro, quando tomei a decisão de não mais amar, confesso que não acreditei no que eu impunha à minha alma, ainda jovem, mas desesperançosa. Você constrói sonhos com o outro e este outro de repente não está mais ali pra te dizer que aquilo é o que “sonhamos”. Ou você idealiza e isso é o bastante pra viver como um esquizofrênico.A verdade é que um dia você tira os óculos coloridos e percebe que seu mundo é preto e branco mesmo. Turvo. Cheio de pontos cegos. E não há mais nós, tampouco planos. E você se vê num beco em que a única saída é escolher sair dele sozinha e não amar como antes.
Aí que reside minha inquietação: de fato, minha “autopromessa” se cumpriu e meu coração está em aberto. E, como qualquer ser humano paradoxal que é, se dá conta de que amar é uma das melhores experiências que se pode viver. Não importa o tamanho, duração e intensidade que se vive tal amor: é amar que te torna mais belo neste mundo perverso. Atire a primeira pedra quem não gosta de se deitar apaixonadamente com quem ama e levar às últimas consequências do prazer este amor. Gozar com o corpo e a mente junto de quem se ama é uma experiência espiritual. Por quê? Ora, porque te leva a um lugar que só por esta via pode ser alcançada.
Há quem defenda que é possível ser feliz sem amar. Concordo em parte. Não acredito nesta conversa do senso comum que diz que pra ser feliz tem que ser a dois. Custei a entender isto e tento compreender a experiência que é estar sozinha , criar e cunhar meu espaço individual e sobretudo, se entender. Contudo, há algo em mim que o tempo todo desperta para a vontade de me apaixonar.
Ah, como é bom poder se envolver, ter um quarto vazio numa madrugada de junho para poder desfrutar do silêncio com o outro. Acontece que não há o outro. Que ele não exista ali ao seu lado fisicamente é perfeitamente aceitável, uma vez que ele reside nos pensamentos e devaneios mais íntimos da psyché. Todavia, o que se faz quando nem nos sonhos ele reside? É desejo, mas não é projetado; não tem rosto e só poderia existir à medida que o pensasse. Mas não penso e isso me faz infeliz, porque apesar da inexistência, havia um ideal e agora não há mais. Havia sonhos, planos, aspirações e agora não há mais. A ansiedade e a idealização não existem mais também...vazio...vazio...vazio...
Em qual tempo ficou perdida a minha coragem pra amar?


Laura 

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