sexta-feira, 31 de maio de 2013

O fiapo de felicidade

Uma das minhas melhores amigas me ligou ainda há pouco para narrar mais um daqueles episódios que nós, mulheres, tememos encarar: o cara que você curte, que ama, que amou, que é coisa de pele e o que quer que seja, não deu certo contigo e você “descobre” que agora ele tem outra. O simples fato da coisa toda não ter dado certo, geralmente é uma tortura para as mulheres, que se perguntam infinitamente como e por que deu errado: a gente se doa, a gente joga o jogo, a gente se prepara, a gente faz o diabo pro sujeito entender que estamos a fim de que a coisa dê certo. Mas muitas vezes não dá. Na maioria delas não dá.
Não sou destas feministas que dizem com veemência que “os homens não prestam” . Com exceção daquela conversa numa mesa de bar em que escancaramos estes jargões para provocar os homens ao nosso redor, não acredito nessa afirmativa. Acredito que os homens funcionam de outro modo, e ponto: não adianta querermos decifrá-los porque é tarefa inútil. Os homens são práticos e só fazem o que realmente querem , de um modo geral.
Mas ao ouvir minha amiga, me senti no lugar dela: a história se repete. E de novo...e de novo. E as histórias de outras amigas e a minha também se repetem. Todavia hoje, me identifiquei mais uma vez ao ouvi-la chorar. Minha avó diz que entender as lágrimas do outro é saber exatamente como ele se sente. Eu me senti na pele dela e tentei buscar palavras para acalmá-la e tentar fazê-la entender que a vida segue; me dei conta de que o mesmo conselho serve para mim.
Sozinha em casa em mais um domingo ensolarado, pus-me novamente a refletir e rodear-me de pensamentos vãos acerca dos relacionamentos amorosos. Me dei conta de que, ainda que estejamos em um relacionamento instável e muitas das vezes infeliz, nos apegamos a ele. Nos apegamos ao mínimo de bom que ele pode oferecer. Ou que em outro momento tenha oferecido. Garcia Márquez é o escritor que melhor traduziu (pelo menos para mim) este apego ao que hoje nomeei “fiapo de felicidade” : “ a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas (...) graças a este artifício, conseguimos suportar o passado.”
Fiapo de felicidade: essa era a expressão que eu procurava há  tempos para entender ao que eu e tantas outras mulheres nos apegamos. Na maior parte destes tipos de relacionamentos, infelizmente a felicidade não é maior que o sofrimento: brigamos, cometemos excessos, exigimos demais, jogamos errado. Ah, os jogos...quantas vezes jogamos o jogo julgando ter certeza de que é o jogo certo! Bobagem. Os homens se cansam. A gente também se cansa. E quando o cansaço bate à porta de ambos, nos apegamos ao fiapo de felicidade. O cara te faz o diabo, você faz da vida dele o diabo também, mas quando ele vai embora, é duro digerir. É duro ouvir dele o “não”. É duro tomar um café sozinha porque ele não está mais ali contigo: está com outra. Normal que ele tenha outra, é a ordem natural das coisas. E a ideia desce tão amarga como o café solitário que você pediu: fiapo de felicidade está ali. Você se apegou tanto a ele que poucas vezes se dá conta de que não pode e nem precisa mais dele porque o fiapo é só lembrança. E fiapo não é a totalidade: é uma parte mínima. Relacionamento demanda entrega, honestidade, amor...
Em mais uma tarde de domingo ensolarado, o fiapo ainda assombra meus pensamentos. Os da minha amiga também. Concluo que ele é uma tentativa vã de buscar a felicidade. Concluo também que o tempo todo estamos nesta busca infindável, pagando um preço alto sem nos questionar por quê. Por fim, me entrego ao pensamento de que é necessário deixar o fiapo de felicidade escapar das nossas mãos pelo vento sem olhar para trás e começar novamente tecer a felicidade completa. Sem desistir, como Penélope à espera de Ulisses. Crer em nós mesmas é o que basta. Um dia Ulisses chegará. Enquanto ele não vem, o tear nos aguarda.

Bárbara Kreischer

24/02/2013

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