O
fiapo de felicidade
Uma das
minhas melhores amigas me ligou ainda há pouco para narrar mais um daqueles
episódios que nós, mulheres, tememos encarar: o cara que você curte, que ama,
que amou, que é coisa de pele e o que quer que seja, não deu certo contigo e
você “descobre” que agora ele tem outra. O simples fato da coisa toda não ter
dado certo, geralmente é uma tortura para as mulheres, que se perguntam
infinitamente como e por que deu errado: a gente se doa, a gente joga o jogo, a
gente se prepara, a gente faz o diabo pro sujeito entender que estamos a fim de
que a coisa dê certo. Mas muitas vezes não dá. Na maioria delas não dá.
Não sou
destas feministas que dizem com veemência que “os homens não prestam” . Com
exceção daquela conversa numa mesa de bar em que escancaramos estes jargões
para provocar os homens ao nosso redor, não acredito nessa afirmativa. Acredito
que os homens funcionam de outro modo, e ponto: não adianta querermos
decifrá-los porque é tarefa inútil. Os homens são práticos e só fazem o que
realmente querem , de um modo geral.
Mas ao
ouvir minha amiga, me senti no lugar dela: a história se repete. E de novo...e
de novo. E as histórias de outras amigas e a minha também se repetem. Todavia
hoje, me identifiquei mais uma vez ao ouvi-la chorar. Minha avó diz que entender
as lágrimas do outro é saber exatamente como ele se sente. Eu me senti na pele
dela e tentei buscar palavras para acalmá-la e tentar fazê-la entender que a
vida segue; me dei conta de que o mesmo conselho serve para mim.
Sozinha
em casa em mais um domingo ensolarado, pus-me novamente a refletir e rodear-me
de pensamentos vãos acerca dos relacionamentos amorosos. Me dei conta de que,
ainda que estejamos em um relacionamento instável e muitas das vezes infeliz,
nos apegamos a ele. Nos apegamos ao mínimo de bom que ele pode oferecer. Ou que
em outro momento tenha oferecido. Garcia Márquez é o escritor que melhor
traduziu (pelo menos para mim) este apego ao que hoje nomeei “fiapo de felicidade” : “ a memória do
coração elimina as más lembranças e enaltece as boas (...) graças a este
artifício, conseguimos suportar o passado.”
Fiapo de felicidade:
essa era a expressão que eu procurava há tempos para entender ao que eu e tantas outras
mulheres nos apegamos. Na maior parte destes tipos de relacionamentos, infelizmente
a felicidade não é maior que o sofrimento: brigamos, cometemos excessos,
exigimos demais, jogamos errado. Ah, os jogos...quantas vezes jogamos o jogo
julgando ter certeza de que é o jogo certo! Bobagem. Os homens se cansam. A
gente também se cansa. E quando o cansaço bate à porta de ambos, nos apegamos
ao fiapo de felicidade. O cara te faz
o diabo, você faz da vida dele o diabo também, mas quando ele vai embora, é
duro digerir. É duro ouvir dele o “não”. É duro tomar um café sozinha porque
ele não está mais ali contigo: está com outra. Normal que ele tenha outra, é a
ordem natural das coisas. E a ideia desce tão amarga como o café solitário que
você pediu: fiapo de felicidade está
ali. Você se apegou tanto a ele que poucas vezes se dá conta de que não pode e
nem precisa mais dele porque o fiapo é só lembrança. E fiapo não é a
totalidade: é uma parte mínima. Relacionamento demanda entrega, honestidade,
amor...
Em mais
uma tarde de domingo ensolarado, o fiapo
ainda assombra meus pensamentos. Os da minha amiga também. Concluo que ele é
uma tentativa vã de buscar a felicidade. Concluo também que o tempo todo
estamos nesta busca infindável, pagando um preço alto sem nos questionar por
quê. Por fim, me entrego ao pensamento de que é necessário deixar o fiapo de felicidade escapar das nossas
mãos pelo vento sem olhar para trás e começar novamente tecer a felicidade
completa. Sem desistir, como Penélope à espera de Ulisses. Crer em nós mesmas é
o que basta. Um dia Ulisses chegará. Enquanto ele não vem, o tear nos aguarda.
Bárbara
Kreischer
24/02/2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário