Mors
Caminho num jardim de cinzas lápides
Num cemitério frio, anguloso, úmido e
pálido...
A movente lama gélida e mole por debaixo
de meus pés,
Lembra a própria finitude de minha
flácida frágil carne,
Fico estático, extático diante de tua
lápide
Afogado num mar de quadradas cruzes
enlodaçadas
A ler e reler teu exótico nome,
Letra por letra, lacuna por lacuna...
Sem atinar pro oco, pras vidas
estraçalhadas
Que restaram em mim...
Quero, sem êxito, deixar-te ir,
Como as pétalas mortas de um cravo que
deixei cair
Uma a uma, uma a uma...
Em meio a orações surdas sem resposta
alguma
Contudo sinto amargor de fingida e
cortante culpa...
Porque amo-te, mas não posso enterrar-me
por ti
Um impassível anjo me fita, firme
Com seus olhos mortos, desafia-me a lhe
seguir
Um marmóreo olhar, um toque mudo,
As graves sobrancelhas, a boca fria de
som sibilante, sentencia:
- Ou vinde, ou vives... Só finados
seguem daqui!
Decido! Vivo morrendo, porque não mais
por ti! Mas Vivo!
É destino... sou do inverno, hei de subsistir,
Apartai-vos vermes, não serei lama aqui!
Preciso sobreviver a ti,
Com teu enterro um novo eu nasce em mim,
Morre, tom de meu canto, vira lama,
para que de um novo barro eu possa
existir,
Vai meu amor, vou deixar-te ir...
Vai meu amor,
Vou deixar-te, morto, partir...
Quedo
desfolhado, desolado, insulado
traído por quem nasci:
Hiberni pueri, fadado...
Insistente a cumprir a sina do ser,
Viver X Morrer um Filho do Inverno, predestinado...
A, de novo, mil vezes mil,
Quanto durarem os tempos,
vivendo
Morrer.
Francisco Gonçalves
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